Hoje o dia amanheceu chuvoso. Estamos no verão e todo dia preciso lembrar de trazer um casaquinho para o trabalho, já que assim como Floripa, ainda é possível ter "quatro estações em um dia só". Apenas mais um dia normal em Londres, acordar, pegar o metrô para o trabalho, almoçar, voltar para a frente do computador e continuar fazendo o que a interminável lista insiste em mostrar como prioridade. Eis que entre um email e uma planilha a serem preenchidos, dei um suspiro e me senti feliz. Não entendi o porque e alguns minutos depois recebi a notificação de que hoje é 6 de agosto. Eu não acredito em superstições e nem acho que agosto seja o mês mais legal do ano - apesar de não ser também o do desgosto - aí lembrei que hoje faz um ano que a rotina me salvou. Depois de ter morado em Londres, voltado para o Brasil e não ter me readaptado, mudar para a Australia, me sentir um peixe fora d'água e voltar para Londres (tudo isso em 9 anos, ufa!) tinha a sensação que aqui era o meu lugar. Cheguei em Londres com a crise de "recomeçar" e a historia se repetiu - eu era uma garçonete insatisfeita em um dos hotéis mais chiques da cidade. Mas como eu sempre tenho que inventar uma coisa nova, sabia que aqui essa minha carreira hoteleira e flexível não ia durar muito e antes mesmo de pisar na Terra da Rainha já tinha inscrições para workshops gratuitos, encontros de jornalistas e um ticket para participar de uma feira que contrata profissionais bilingues. Foram três meses de muito croissant no café da manhã, dor nas pernas de tanto andar na área VIP do Marriot County Hall Hotel e sorrindo para clientes até que um tweet em um destes eventos de networking mudou o meu CV. Bastaram três mensagens e uma entrevista para eu começar a trabalhar com o que eu queria: Mídias Sociais, relacionada a pessoas que querem mudar de país, ou seja, viagem. Um site ainda no papel e tudo para fazer: pesquisar e escrever sobre países, achar lindas imagens de lugares onde as pessoas moram ou gostariam de morar, fuçar, cadastrar e alimentar todas as redes sociais, ler, ler, ler. Participar de eventos, ir em café da manhã de negócios, conversar com o dono da joalheria inglesa mais tradicional de Londres, que ainda hoje checa as horas no seu relógio de bolso e dois minutos depois saber tudo sobre Aloe Vera com a menina sentada ao meu lado. Três meses depois, contrato de experiência nem existia como não ser renovado tamanha a quantidade de ideias e a vontade de fazer acontecer. Aí chega o chefe e diz: já que você tem viagem marcada para o Natal, o que acha de eu não pagá-la e você tem mais 4 semanas para viajar ano que vem? Pensei: morri, cheguei no céu e ninguém me avisou! Hoje completo 12 meses de alegrias (e sim, ainda tenho as 4 semanas de férias para tirar + 1 proporcional aos meses anteriores, yyeessss), um chefe legal pra C$£@* que todos os dias me apoia, me ensina, me dá liberdade, escuta minhas ideias e também se empolga com elas. Até palestrar do lado dos grandes da KPMG, BBC e Amazon já rolou, olha isso!! Sao estagiários de países como França, Alemanha, Italia e Colômbia que todo dia tem uma história engraçada ou uma comida diferente para mostrar. Achei que depois deste tempo todo viajando por aí fariam com que eu jamais conseguisse ter um cartão ponto, sentar na frente de um computador cinco vezes por semana, das 9 da manhã às 4 da tarde (sim minha gente, acreditem, trabalho até as 4!) e ainda ir pra casa pensando em trabalho (oi?). Sei que trabalhar em grandes empresas faz com que tenhamos que seguir diversas regras (chatíssimas), mas se eu puder dar uma dica para os empresários de plantão (já que conselho não se dá né?), olhem bem ao seu redor e escutem as pessoas com vontade de fazer acontecer. Vocês tem grandes trunfos na mão e não sabem como utilizá-los. Posso contar nos dedos as pessoas que realmente eram felizes nas empresas em que eu trabalhei, a diferença é que eu não consegui viver assim pois já tinha visto um mundo diferente com as viagens que fiz e a experiência morando fora, então meti os pés pelas mãos e saí por aí enquanto esse monte de gente BOA, tá ai esperando ser ouvido e ter uma oportunidade. Que pode nem ser de fazer, mas somente de ser ouvido. Claro que nem todo dia a gente tem a sorte de ter um emprego assim, um chefe assim ou uma oportunidade assim. Mas acho que o importante é a gente não cansar de buscar o ideal, afinal são pelo menos 40 horas por semana, de uma vida inteira, que a gente pode ser um pouquinho mais feliz. Enquanto isso, aqui fora, acaba de abrir o sol e já posso guardar o casaquinho :) A Room in the Moon é uma startup de tecnologia. O site sugere conexões entre pessoas mudando para a mesma cidade ou mesmo país e também oferece quartos para quem está mudando (inicialmente) para Londres. Me apaixonei pela ideia no dia que conversei com o Rafael e tenho certeza que a minha vida teria sido bem mais fácil se ele já existisse em 2004.